sábado, 21 de abril de 2018

A PATOLOGIZAÇÃO DO NATURAL


A PATOLOGIZAÇÃO DO NATURAL
Texto: Filipenses  2:5-11.

INTRODUÇÃO: 

Nos memoriais dias da minha infância pentecostal, não faltaram elementos toscos que se somaram dia após dia às minhas experiências. Um dos que mais marcaram esta primeira fase da minha vida cristã foi a forma como tratavam as coisas naturais, normais da vida. Perseguia-se o mais comum do comportamento humano, rotulando-o como pudico e atentatório à santidade. Por exemplo, o riso, uma das coisas naturais da vida, era tratado como escárnio, desdém, zombaria, um pecado que poderia nos privar do paraíso. Era um retorno ao século XVII, onde o riso era posto no índex de proibições.

Parece que eu estou me vendo dentro do carro de um missionário sueco, vindo de um culto numa casa. A alegria que vivemos naquele culto foi tamanha que eu voltei extravasando minha felicidade assoviando um hino. De repente, o missionário parou o carro e MANDOU eu descer do carro. Eu não estava entendendo nada. Tive que vir caminhando uns 5 quilômetros a pé, à noite, porque o missionário se sentiu ofendido com o meu assobio. Isso é patologização do natural.

Eram tempos – isso ainda acontece – em que o acento da salvação recaía sobre o comportamento humano e não sobre a morte vicária de Jesus pelo homem. Daí por que patologizava-se qualquer manifestação de alegria, felicidade, que não fosse dentro de uma entourage evangélica. Você não podia ser espontâneo. Tinha que vigiar seu «lado humano» 24 horas por dia. A obrigação da virtude era severíssima. Portanto, quanto mais sisudo, sério, austero, severo, rijo, você fosse, mais você era considerado santo.

O lado humano era completamente desprezado, odiado, rejeitado. Buscava-se estar na dimensão espiritual o tempo todo. Eles não deixavam que a gente fosse humana.

A consequência disso é uma tragédia. O comportamenta- lismo toma conta do vivencial, e passa a ser referência e não apenas um apêndice da vida. Quando temos que ser divinos o tempo todo, por conta de injunções, estamos deixando de viver o lado mais bonito da vida.

É como disse certa bióloga: “Devíamos comer coisas vivas, mas nós nos acostumamos a comer coisas mortas. Hoje, só comemos coisas mortas!”
Estamos vivendo um evangelho baseado na morte do nosso lado humano; não fomos ensinados a viver o humanamente humano que há em nós. Precisamos ler mais sobre a vida de Jesus nos evangelhos, a fim de nos acostumarmos a viver mais a vida de Jesus do que a sua morte.

Eu desejaria que você visse o filme “O homem que viu o infinito”. É a história de um homem-gênio em matemática. Mas por ser indiano, foi preterido pelos grandes estudiosos de matemática de Oxford. Ele conseguia fazer cálculos matemáticos impossíveis de serem resolvidos. Morreu de tuberculose, porque passava frio e fome, residindo do lado de fora da universidade, onde não havia calefação. 

Ele era bom no que fazia, porque aprendeu com as metáforas da vida cotidiana. Ele era um homem tão sensível que ele conseguia ver e calcular todos os elementos que contêm num grão de areia.

Tornamo-nos rígidos e deuses inumanos, porque deixamos a religião tirar de nós o lado humano. O que somos, hoje, não sei. Mas precisávamos fazer meia volta para sermos novamente humanos cheios de fé em Deus. Que Deus faça de nós humanos humanamente humanos. 

A TALIBANIZAÇÃO DA VIDA CRISTÃ

No livro «Caçador de pipas», de Khaled Hosseini, Amir pergunta ao pai de seu amigo Hassan, que fora morto, por que ele não ficou na sua cidade natal, invadida pelos talibãs? – pergunta Amir. Ao que o pai de Hassan responde: «Eles [os talibãs] não deixam que a gente seja humano».

Parece-me que este é o problema de algumas denominações evangélicas, ainda hoje: elas não deixam que a gente seja simplesmente humano. Isto porque toda religião fundamentalista é levada ao extremo de achar-se guardiã de Deus e de seus mistérios. Com isso, viram capatazes do divino e pessoas extremamente duras, severas, rigorosas, inclementes.

Algumas igrejas fizeram a pior coisa que poderiam fazer com o ser humano: o desumanizaram.

Esta é uma regra fundamental que dela não podemos nos distanciar: espiritualidade não tira de nós o nosso lado humano, mas sim o aperfeiçoa. Conversão não retira o nosso lado humano, mas nos devolve. Portanto, quanto mais você se humaniza, no bom sentido da palavra, mais espiritual você se torna.

Quanto mais você perde o seu lado humano, mas inclemente você se torna. O pior carrasco dos outros e de si mesmo é o humano que se acha santo.

O que faz uma igreja ser grande? Resposta: É quando os seus membros se tornam simples seres humanos em vez de santos inacessíveis.

Quando uma igreja se patologiza a primeira coisa que acontece é ela tornar pecaminosa toda e qualquer expressão de espontaneidade, naturalidade. Vai de um assobio a um riso natural. A talibanização da igreja proíbe que sejamos simplesmente humanos.  

CONCLUSÃO:

A referência teológica sobre o assunto encontra-se na epístola paulina aos filipenses. O apóstolo diz: “... e, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas ESVAZIOU-SE (Kenosis), tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz”.

O que Paulo está dizendo, em outras palavras, é que ser divino é o que todo humano deseja. Mas o único que era/é divino e abriu mão da sua divindade foi Jesus. Ora, convenhamos, se o Filho de Deus se tornou humano, por que nós, meros seres humanos, queremos nos tornar divinos?

Este é o maior desastre da religião: não deixar que as pessoas sejam simplesmente humanas. Parte superior do formulário

Autor: Rev. Paulo Cesar Lima

sexta-feira, 6 de abril de 2018


O PRIMEIRO A INAUGURAR O PARAÍSO PRECONIZA O ATO MAIS ABSURDO PROMOVIDO PELA GRAÇA DE DEUS


Lucas 23:39-43: «Um dos criminosos que ali estavam dependurados lançava-lhe insultos: ‘Você não é o Cristo? Salve-se a si mesmo e a nós!’ Mas o outro criminoso o repreendeu, dizendo: ‘Você não teme a Deus, nem estando sob a mesma sentença? Nós estamos sendo punidos com justiça, porque estamos recebendo o que os nossos atos merecem. Mas este homem não cometeu nenhum mal’. Então ele disse: ‘Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino’. Jesus lhe respondeu: ‘Eu garanto: Hoje você estará comigo no paraíso’.»

INTRODUÇÃO

O homem que está ao lado de Jesus na cruz e que recebeu do homem de Nazaré a palavra de perdão e a quem o Filho de Deus garantiu o direito de entrar no paraíso, não é um santo, nem tampouco um referencial moral nem um dos seus discípulos. Trata-se, para a tristeza dos fariseus, de um ladrão. Só que este ladrão levanta-se, primeiramente, como o maior absurdo realizado pela graça de Deus; em segundo lugar, este ladrão levanta-se como símbolo, emblema, referencial, modelo do absurdo que a graça de Deus pode realizar em detrimento de regras, normas e códigos de conduta.

Este fato me faz pensar a graça de Deus sob pelo menos três aspectos:

1. A graça não deixa o homem, mesmo o mais santo e imaculado, roubar a cena na história da salvação. Nós não somos aceitos por Deus porque somos certinhos e por conta de uma santificação invejável. É a misericórdia de Deus que nos faculta entrarmos no paraíso, pois «santo não é aquele que nunca se suja, mas aquele que sempre se lava, quando se suja».

2. Até a última hora das nossas vidas o que prevalece como elemento legitimador da nossa entrada no paraíso é o ato expiatório de Jesus, e mais nada: «Há uma dúzia de pessoas que querem colocar só gente perfeita no Paraíso. Jesus fez ao contrário. Inaugurou o Paraíso com um ladrão».  

3. A salvação do ladrão da cruz nos abre os olhos para dois fatos inusitados que ocorrem na vida: a) não é a nossa bondade e espiritualidade que contam quando nos apresentamos diante de Deus, mas sim a bondade do Senhor Jesus como doador da vida a todos nós e b) devemos ser lembrados por Jesus como alguém que reconhece sua missão libertadora, reconciliadora, perdoadora e como o único que pode nos levar ao paraíso.   

CONCLUSÃO:

Com esta mensagem eu entendo que nada é mais importante na vida do que o reconhecimento da nossa incapacidade de agradar a Deus. O evento do ladrão que foi perdoado na cruz nos livra de nós mesmos quanto à pretensão de roubar a cena na construção da salvação. Isto porque salvação não é algo que eu auto patrocino amesquinhando-a com um estilo de vida. Ninguém pode querer ser melhor do que realmente é. Melhor é dizer como o ladrão que foi perdoado na cruz: «Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu reino...». 

Termino com a frase que mais me tocou até aqui neste ano de 2016:

«Há algumas dúzias de milhares de pessoas que querem colocar só gente perfeita no Paraíso. Jesus fez ao contrário. Inaugurou o Paraíso com um ladrão».  


Rev. Paulo Cesar Lima

UM POUCO DE PÉ NO CHÃO PARA NÃO COLOCAR O PÉ NA JACA...


UM POUCO DE PÉ NO CHÃO PARA NÃO COLOCAR O PÉ NA JACA...


Após tantos anos militando na área do ensino, cheguei à conclusão que só não se aprende quando não se quer aprender. A rejeição pelo «novo ensino» está fundamentalmente ligada à linguagem diferente, porque toda linguagem traz consigo uma ideologia.
Aqui está o maior problema de não se querer aprender. É que, o que se ouve, não bate com o que se está «acostumado a ouvir» ou com o que se «aprendeu». Na verdade, nós só nos interessamos por aquilo que chama a nossa atenção, isto é, aquilo que aceitamos como certo; aquilo que tem a ver com o que aprendemos (o compreendido) como verdade.
A rejeição de um ensino não está no modo de falar de alguém, mas sim no conteúdo que ele traz ao falar, e também por conta do modo que se quer ouvir alguém falar. Logo, ouvir de outro modo não é aceito.
Não preciso ser mais explícito sobre o que estou querendo dizer. Estou afirmando que algumas pessoas não aceitam um tipo de linguagem que não seja nos padrões religiosos, porque não bate com aquilo que sempre foi aceito como certo. Pessoas que pensam assim estão numa prisão mental, que é a pior de todas elas, e não sabem. Esta recusa despropositada de não aceitar a «nova linguagem» é em face de que os brios dos ouvintes são confrontados e por conta de eles quererem ouvir só do seu jeito. É em razão disso que quando é feita aplicações morais esdrúxulas, a partir de um texto narrativo, essas mesmas pessoas dizem que ouviram a mais linda mensagem.
Está explicado por que Jesus pergunta aos ouvintes sobre a razão de eles rejeitarem sua mensagem:

«Por que não entendes a minha linguagem?»

O contexto no qual Jesus diz essas palavras é meio adverso e violento. Ele está diante de fariseus mal-amados, raivosos, ardilosos, religiosos perversos, cruéis, os quais veem Jesus como adversário. Por isso mesmo estão completamente fechados para o que Ele [Jesus] fala.
O que está acontecendo nesta narrativa é simplesmente o que ocorre em muitos auditórios religiosos.
A razão de eles não entenderem os ensinamentos de Jesus, não é porque Jesus falava difícil, usando retóricas elevadas ou por conta de um sermão complicado. Não. Absolutamente.
O fato real da não compreensão desses ouvintes em relação à linguagem usada por Jesus é que eles decidiram não lhe darem ouvidos.
Eles não compreendem Jesus porque não prestam atenção no que Ele ensina, pelo fato de não aceitarem qualquer mudança que o homem de Nazaré propunha através de seus ensinamentos.
Eles não compreendem Jesus em razão de não desejarem ter um olhar novo sobre si mesmos e sua prática religiosa. Mais: os ensinos de Jesus eram opostos a tudo que eles defendiam.
Eles não compreendem Jesus porque sabem que a linguagem de Jesus é linguagem de confronto, enfrentamento, desafio, emparedamento da própria existência no sentido de exigir dela mudanças radicais, revolucionárias.
Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque para compreendê-la é preciso decisão, conversão, saída de um estado existencial engessado para uma conversão ininterrupta e permanente.
Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque o que Jesus ensina ameaça sua comodidade, sua segurança, sua maneira religiosa de viver.
Eles não compreendem a linguagem de Jesus porque não querem perder certos prazeres e privilégios; porque não querem se engajar ao projeto desafiador do Mestre da Galileia, que propõe vida desinstalada, dependente, ameaçada, cheia de emoções mas com muito sofrimento.
Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque se trata de algo complicado para o religioso, que vive de coisas fixas, rígidas, quadradas, controladas.

Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque ele não fala como os religiosos da sua época, os quais se expressam de forma opressora, colocando jugo e carga pesada sobre o povo que eles mesmos não conseguem carregar.
Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque é linguagem que, primeiramente, liberta a mente, a consciência, o homem das correntes de um religiosismo que mais oprime que liberta.
Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque querem um evangelho que dá o controle das almas nas mãos dos mais santarrões, contra os quais Jesus combateu e ainda os chamou de «serpentes, cobras venenosas».
Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque gostam de viver debaixo do «cinto do pai», que é uma forma de compensar as suas práticas pervertidas.
A bem da verdade, as exigências que os ensinamentos de Jesus fazem a nós, religiosos, nos tiram da zona de conforto, da comodidade e nos levam a fazer revisão constante da nossa caminhada. 
Há uma coisa extremamente sutil e diabólica que se instaurou nos meios evangélicos, hoje, para explicar a ausência de pregadores que não seguem o senso comum dos nossos púlpitos, pois pregam mensagens opostas a tudo quanto a turba multa gosta de ouvir. Geralmente, esses são chamados de «pregadores-que-não-têm-linguagem-para-o-povo». Esta pecha colocada sobre os «pregadores-que-não-têm-linguagem-para-o-povo» tem por objetivo submetê-los a um «princípio de restrição». Só que isso é uma enorme mentira. O que está por trás destes «condicionamentos» nos quais são submetidos tais pregadores é, de fato, o medo por suas mensagens libertadoras. «E conhecerei a verdade, e a verdade vos libertará» (João 8:32)
Não faz muito tempo, estive pregando numa igreja e, ao terminar, já estava entrando em meu carro, quando fui abordado por dois jovens que, meio que perplexos, me disseram:

«Pastor, o senhor precisa vir mais vezes aqui. Nós
nunca ouvimos esse tipo de mensagem!».

A que tipo de mensagem eles se referiam? Eles estavam falando, sem saberem, da linguagem que eu usei: A linguagem da libertação.
Aquelas pessoas foram, de alguma forma, desafiadas pelo poder da Palavra. O que eles estavam realmente tentando dizer é que nunca ouviram aquele tipo de linguagem no púlpito de sua igreja.
Portanto, a não compreensão da linguagem de Jesus não está na quantidade de palavras difíceis que Ele usava, nem na sua comunicação austera, mas sim pela razão de que suas mensagens promoviam embaraços para os fariseus que acostumavam o povo a meias verdades; o ensino de Jesus gerava desafios perturbadores em relação à verdade, aos maus hábitos, ao lado corrupto da prática religiosa. «Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres», disse Jesus. (João 8:36)


 Rev. Paulo Cesar Lima