sexta-feira, 6 de abril de 2018

UM POUCO DE PÉ NO CHÃO PARA NÃO COLOCAR O PÉ NA JACA...


UM POUCO DE PÉ NO CHÃO PARA NÃO COLOCAR O PÉ NA JACA...


Após tantos anos militando na área do ensino, cheguei à conclusão que só não se aprende quando não se quer aprender. A rejeição pelo «novo ensino» está fundamentalmente ligada à linguagem diferente, porque toda linguagem traz consigo uma ideologia.
Aqui está o maior problema de não se querer aprender. É que, o que se ouve, não bate com o que se está «acostumado a ouvir» ou com o que se «aprendeu». Na verdade, nós só nos interessamos por aquilo que chama a nossa atenção, isto é, aquilo que aceitamos como certo; aquilo que tem a ver com o que aprendemos (o compreendido) como verdade.
A rejeição de um ensino não está no modo de falar de alguém, mas sim no conteúdo que ele traz ao falar, e também por conta do modo que se quer ouvir alguém falar. Logo, ouvir de outro modo não é aceito.
Não preciso ser mais explícito sobre o que estou querendo dizer. Estou afirmando que algumas pessoas não aceitam um tipo de linguagem que não seja nos padrões religiosos, porque não bate com aquilo que sempre foi aceito como certo. Pessoas que pensam assim estão numa prisão mental, que é a pior de todas elas, e não sabem. Esta recusa despropositada de não aceitar a «nova linguagem» é em face de que os brios dos ouvintes são confrontados e por conta de eles quererem ouvir só do seu jeito. É em razão disso que quando é feita aplicações morais esdrúxulas, a partir de um texto narrativo, essas mesmas pessoas dizem que ouviram a mais linda mensagem.
Está explicado por que Jesus pergunta aos ouvintes sobre a razão de eles rejeitarem sua mensagem:

«Por que não entendes a minha linguagem?»

O contexto no qual Jesus diz essas palavras é meio adverso e violento. Ele está diante de fariseus mal-amados, raivosos, ardilosos, religiosos perversos, cruéis, os quais veem Jesus como adversário. Por isso mesmo estão completamente fechados para o que Ele [Jesus] fala.
O que está acontecendo nesta narrativa é simplesmente o que ocorre em muitos auditórios religiosos.
A razão de eles não entenderem os ensinamentos de Jesus, não é porque Jesus falava difícil, usando retóricas elevadas ou por conta de um sermão complicado. Não. Absolutamente.
O fato real da não compreensão desses ouvintes em relação à linguagem usada por Jesus é que eles decidiram não lhe darem ouvidos.
Eles não compreendem Jesus porque não prestam atenção no que Ele ensina, pelo fato de não aceitarem qualquer mudança que o homem de Nazaré propunha através de seus ensinamentos.
Eles não compreendem Jesus em razão de não desejarem ter um olhar novo sobre si mesmos e sua prática religiosa. Mais: os ensinos de Jesus eram opostos a tudo que eles defendiam.
Eles não compreendem Jesus porque sabem que a linguagem de Jesus é linguagem de confronto, enfrentamento, desafio, emparedamento da própria existência no sentido de exigir dela mudanças radicais, revolucionárias.
Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque para compreendê-la é preciso decisão, conversão, saída de um estado existencial engessado para uma conversão ininterrupta e permanente.
Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque o que Jesus ensina ameaça sua comodidade, sua segurança, sua maneira religiosa de viver.
Eles não compreendem a linguagem de Jesus porque não querem perder certos prazeres e privilégios; porque não querem se engajar ao projeto desafiador do Mestre da Galileia, que propõe vida desinstalada, dependente, ameaçada, cheia de emoções mas com muito sofrimento.
Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque se trata de algo complicado para o religioso, que vive de coisas fixas, rígidas, quadradas, controladas.

Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque ele não fala como os religiosos da sua época, os quais se expressam de forma opressora, colocando jugo e carga pesada sobre o povo que eles mesmos não conseguem carregar.
Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque é linguagem que, primeiramente, liberta a mente, a consciência, o homem das correntes de um religiosismo que mais oprime que liberta.
Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque querem um evangelho que dá o controle das almas nas mãos dos mais santarrões, contra os quais Jesus combateu e ainda os chamou de «serpentes, cobras venenosas».
Eles não compreendem a linguagem de Jesus, porque gostam de viver debaixo do «cinto do pai», que é uma forma de compensar as suas práticas pervertidas.
A bem da verdade, as exigências que os ensinamentos de Jesus fazem a nós, religiosos, nos tiram da zona de conforto, da comodidade e nos levam a fazer revisão constante da nossa caminhada. 
Há uma coisa extremamente sutil e diabólica que se instaurou nos meios evangélicos, hoje, para explicar a ausência de pregadores que não seguem o senso comum dos nossos púlpitos, pois pregam mensagens opostas a tudo quanto a turba multa gosta de ouvir. Geralmente, esses são chamados de «pregadores-que-não-têm-linguagem-para-o-povo». Esta pecha colocada sobre os «pregadores-que-não-têm-linguagem-para-o-povo» tem por objetivo submetê-los a um «princípio de restrição». Só que isso é uma enorme mentira. O que está por trás destes «condicionamentos» nos quais são submetidos tais pregadores é, de fato, o medo por suas mensagens libertadoras. «E conhecerei a verdade, e a verdade vos libertará» (João 8:32)
Não faz muito tempo, estive pregando numa igreja e, ao terminar, já estava entrando em meu carro, quando fui abordado por dois jovens que, meio que perplexos, me disseram:

«Pastor, o senhor precisa vir mais vezes aqui. Nós
nunca ouvimos esse tipo de mensagem!».

A que tipo de mensagem eles se referiam? Eles estavam falando, sem saberem, da linguagem que eu usei: A linguagem da libertação.
Aquelas pessoas foram, de alguma forma, desafiadas pelo poder da Palavra. O que eles estavam realmente tentando dizer é que nunca ouviram aquele tipo de linguagem no púlpito de sua igreja.
Portanto, a não compreensão da linguagem de Jesus não está na quantidade de palavras difíceis que Ele usava, nem na sua comunicação austera, mas sim pela razão de que suas mensagens promoviam embaraços para os fariseus que acostumavam o povo a meias verdades; o ensino de Jesus gerava desafios perturbadores em relação à verdade, aos maus hábitos, ao lado corrupto da prática religiosa. «Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres», disse Jesus. (João 8:36)


 Rev. Paulo Cesar Lima

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